OLOKUM


NA ROTA DO POENTE

 

   

 

 

Em 1853 fui para o poente, a caminho de Moçambique. Com a minha comitiva, armei as últimas cipundas perto de Ngalangi.O comércio era o nosso horizonte.Em Kakonda procurei a casa do meu tetravô. Depois em Cikomba, passei na aldeia onde no lugar do meu pai, podia reinar em Kandingi, herdando algum poder de outro tetravô. Falei-lhes sobre a minha angústia de invenção, de uma nova maneira de ler na natureza a cartografia e os caminhos. Todos disseram para seguir os rios, compreender as árvores, a vegetação e os animais. Mais importante, acatei: São as pessoas que aparecem no caminho, levar-te-ão sempre aos que mandam e vão te pedir a portagem para travessia. Se não pagares, terás sempre azar no caminho, os homens da tua comitiva poderão morrer de doenças estranhas. Mas, ouve, importante mesmo são os animais e os caminhos que indicam sempre o rumo de longe. Nas colinas, planuras, rios e savanas demandei terras. Já tinha atravessado rios como o Liambeje e o Kuvango. Depois encontrei o Rovuma. Quando cheguei no povo chamado Va-Lungwana, me disseram que era ali onde viviam também os Vi-Ndjungu.

 

(Poema em prosa de Luís Kandijimbo)



Escrito por Alapalá às 22h58
[ ] [ envie esta mensagem ]


ISTAMBUL

 

Na terra de Nazim Hikmet

Vagueio na história de uma cidade

Em bazares e mesquitas

Meus pés sentem vetustos orgulhos

De Constantinopla, do Sultão e do Império

No bazar, com o chá do elixir

E numa raki muhabbet

A turca livreira anuncia

Poemas do Sultão e livros

De Kemal Ataturk, reformador

Na noite ruidosa

As putas russas

Como a amada do Sultão 

 

 

(Poema do angolano Luís Kandjimbo)



Escrito por Alapalá às 16h50
[ ] [ envie esta mensagem ]


CIRCUMNAVEGAÇÃO

  

 

Em volta da flor fez
a abelha
a primeira viagem
circumnavegando
a esfera

 

Achado o perímetro
suicidou-se, LÚCIDA
no rio de pólen
descoberto.

 

 

(Poema da angolana Ana Paula Tavares)



Escrito por Alapalá às 16h35
[ ] [ envie esta mensagem ]


TRÊS POEMAS DE JOSÉ LUÍS MENDONÇA

 

POESIA VERDE

 

para Carlos Drummond de Andrade

 

No meio do caminho nunca houve uma só pedra

As pedras nascem na boca e a boca é o seu caminho

Das pedras que comemos as cidades ainda falam

pelos cotovelos da noite Não eram pedras eram pedras

com cabeça tronco e sexo Pariram fábricas

de pedras montadas sobre a língua E as pedras comeram

a pedra que restou no meio do caminho

 

 

PÁSSARO SUBMERSO

 

Peça a peça ponho a funcionar

a máquina de fabricar o canto vivo

de um pássaro submerso

entre as areias movediças

do teu sexo e com esse canto acendo

o filamento quase de vidro

entre as cuecas côr de prata que hoje trazes:

és como a lâmpada quando funde:

deixas uma lágrima côr de cinza clara

sobre a branca passividade do sofá.



Escrito por Alapalá às 16h38
[ ] [ envie esta mensagem ]


O SEXO DE UM ANJO

 

Uma paisagem triangular com vitoriosos cães de briga

galga o alcatrão branco da língua.

Cântico litúrgico de longos rios submarinos.

Seguro-me de pé ao varão de sal vivo.

As coisas não acontecem por acaso

nem este tic-tac do sangue minúsculo na ponta

dos dedos do mar nem esse brique-a-braque do lazer preciso

da luz verde aborígene em cada olhar de alga.

Algo me diz que um dia ainda me evaporo

no dorso fundo das areias. Serei um conto hípico

sem bátegas de água à cabeça

um olhar de peixes muito pretos

como a origem da humanidade.

Hei-de calar então todos os anúncios

sobre como estar na terra sobre como

reduzir a pó o preço das lavandarias da alma

e ser o sexo sujo de espuma e de paixão

de um anjo na orla da praia.

 

José Luís Mendonça nasceu em 1955, no Golungo Alto, província do Kwanza Norte, em Angola. Poeta e jornalista, é funcionário da Unicef, exercendo o cargo de assistente de informação. Colabora em diversas publicações de seu país e no Jornal de Letras, Artes e Idéias, de Portugal. Ingressou na União dos Escritores Angolanos em 1984. Publicou os livros de poesia Chuva Novembrina (1981), Gíria de Cacimbo (1987), Respirar as Mãos na Pedra (1991),  Quero Acordar a Alva (1996),  Se a água falasse (1997), Logaríntimos da Alma — Poemas de Amar (1998) e  Ngoma do Negro Metal (2000).



Escrito por Alapalá às 16h37
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico
03/09/2006 a 09/09/2006
16/07/2006 a 22/07/2006
18/06/2006 a 24/06/2006
11/06/2006 a 17/06/2006
04/06/2006 a 10/06/2006
28/05/2006 a 03/06/2006
21/05/2006 a 27/05/2006
14/05/2006 a 20/05/2006
07/05/2006 a 13/05/2006
30/04/2006 a 06/05/2006
23/04/2006 a 29/04/2006
16/04/2006 a 22/04/2006
09/04/2006 a 15/04/2006
02/04/2006 a 08/04/2006
26/03/2006 a 01/04/2006
19/03/2006 a 25/03/2006




Outros sites
 Cantar a Pele de Lontra
 Zunái, Revista de Poesia e Debates
 Abreu Paxe
 União dos Escritores Angolanos
 Poesia africana de língua portuguesa
 Poesia angolana hoje
 Angola Press
 Valter Hugo Mãe
 Dicionário de autores angolanos
 Papel de Rascunho (Virna Teixeira)
 Claudio Daniel Home Page
 Ana Rusche
 O Pesa-Nervos
 Ademir Assunção
 Ricardo Aleixo
 Luís Carlos Patraquim (Moçambique)
 Moçambique para todos
 SenzalAngola
 Artes plásticas de Angola
 Nota sobre a Literatura de São Tomé e Príncipe
 Autores africanos
 Poesia moçambicana contemporânea
 Fotos da cidade de Maputo (Moçambique)
 Museu Afro-Brasil
 Poesia africana de língua portuguesa