OLOKUM


CANÇÃO EM ÁFRICA

 

Caminhos trilhados na Europa
de coração em África
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o Sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
ao atravessar estes campos de trigo sem bocas
das ruas sem alegrias com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim Negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu o Sporting ou não.
Ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho:
Oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro blue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros.

 

Poema de Francisco José Tenreiro (São Tomé e Príncipe)



Escrito por Alapalá às 10h24
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In My Country

 

walking by the waters

down where an honest river

shakes hands with the sea,

a woman passed round me

in a slow watchful circle,

as if I were a superstition;

 

or the worst dregs of her imagination,

so when she finally spoke

her words spliced into bars

of an old wheel*. A segment of air.

Where do you come from?

“Here,” I said, “Here. These parts.”

 

No Meu País

 

caminhando pelas águas

por onde um rio honesto

cumprimenta o mar,

uma mulher passou em volta de mim

em um longo círculo de espreita

como se eu fosse uma superstição;

 

ou os piores detritos da sua imaginação,

então quando ela finalmente falou

suas palavras juntaram-se em compassos

de uma roda* antiquada. Um trecho de melodia.

De onde você é?

“Daqui.” eu disse. “Daqui. Destes lados.”

 

Jackie Kay

 

Tradução: Virna Teixeira

 

(N.T: *Wheel: tipo de dança de roda escocesa.)

 

Filha de um músico nigeriano com uma escocesa, Jackie Kay nasceu em Edimburgo em 1961. Escreve poesia e prosa. Seu romance "Trompete" foi publicado no Brasil, pela editora Record.



Escrito por Virna Teixeira às 13h03
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Trabalho de Armando Santos.



Escrito por Alapalá às 22h47
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RUY DUARTE DE CARVALHO

 

ORDEM DE ESQUECIMENTO

(fragmentos)

3

Aqui estamos na margem, na zona da maré, as águas vêm na oscilação que é delas, estão tão depressa a cativar-nos vivas como se afastam, e nós vidrados na impressão dos passos, só talvez de vez em quando e raramente atentos às mudanças, mas já nos surpreendem novamente, porque olha, sobem, sobem de novo as águas, não te demores muito, achá-las-ás de novo a desfazer as marcas, enquanto avanças, mas não o rastro, que é cedo ainda para deixá-lo impresso. O mar acorda se a atenção lhe acena. Tal qual lembranças te mantinham viva sem que o comércio as mantivesse acesas.

 

(CONTINUA ABAIXO)



Escrito por Alapalá às 22h39
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8

Cruel é o camarão tanto se dar ao esforço da comida com

tanta perna a pedalar no limo, a filtrar o céu das águas

  

 

Reter em cada sorvo

não mais do que além do que a milésima porção do seu

tão leve corpo,

ainda assim pesado, difícil de suster, e trabalhoso.

 

 

Melhor é o leão só carecer do vento que anuncia a caça,

erguer o olhar, aferir o curso da manada, lenta ao seu

encontro e à margem do alcance, explodir a massa

muscular

rasgar a chana a floração avulsa de uma ferida quente.

 

 

Para além disso, breve audácia, o leão namora e dorme.

 

 

Habita o cio.


 

Ruy Duarte de Carvalho nasceu em Santarém (Portugal), em 1941, mas passou a infância e a adolescência no sul de Angola, acompanhando seu pai, um aventureiro que caçava elefantes. Naturalizou-se angolano em 1943. Regente agrícola, foi criador de ovelhas e mais tarde estudou Cinema em Londres e Antropologia em Paris, doutorando-se com uma tese sobre os pescadores da Ilha de Luanda. Atualmente, é professor na Universidade de Luanda. Publicou, entre outros livros, Chão de oferta (1972), A decisão da idade (1976); Exercícios de crueldade (1978); Sinais misteriosos... já se vê...(1979); Ondula savana branca (1982); Lavra paralela (1987); Hábito da terra (1988); Memória de tanta guerra (1992); Ordem de esquecimento (1997); Observação directa e Lavra reiterada (ambos de 2000).



Escrito por Alapalá às 22h39
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