OLOKUM




Escrito por Alapalá às 21h16
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DOIS POEMAS DE LUÍS CARLOS PATRAQUIM


ÍNDICA MISSANGA SOBRE O TEU CORPO


Agora percorro-te pelas artérias de poeira e branco encardido. Pedra obsessiva, vazia, petrificando o tempo. Pedra de mulher mítica, olhando-me. Mulher onde eram as ondas e os pássaros e os barcos elementares.


E agora fotografo-te em ritmo de coda, em variações batidas pelas veias abertas do teu segredo violado. Usurpado. Acrescentado. Agora, sobre os dias de tédio martelados a luz, de partos povoando-se, da epiderme em grito contra a pedra. Naufrágio de colmo guerrilhando-te os afectos, os amantes em rotação de geografias, o íman das coifas e das desembainhadas, tesas baionetas.


Agora possuo-te. Perco-te. A minha boca em Macua perguntando-te como se diz «bom dia», neste articulado silêncio de arquitecturas que em quotidiano caminhar cruzo, tu cruzas, entre levas de intestino e fome. Como um distúrbio da grandeza maior que te cobre.


Agora eu, moçambicana concha, madeirame de açoitada nau escorando-me os músculos, indica missanga perdida, sobre o teu corpo, minha mulher, minha irmã, minha mãe, percorro-te. Sou.



Escrito por Alapalá às 21h14
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CORPO NOSTÁLGICO

Adufe, tufo persa, arábia das noites à deriva, memória do sal, langor plasmando-se em marítimas vozes sensuais, agudas — tantos continente na iridiscente indica vulva ancorados! Espírito do som, nós te convocamos. Vem de onde o homem se angustia e solitário de si se esquece. Vem do interior da sibilante terra à monotonia magnífica que nos entontece as cabeças, que põe desertos de espuma com barcos sobre os ombros e peixes atónitos no olhar. Vem com o impudor de teus ritmos transparentes. Vem à grande festa nocturna deste corpo nostálgico, n'sope que só quer brincar, afugentar as sinuosas narrativas que mal me disseram, confundiram. Em meus silêncios me canto e em batuque me faço. Raiva de não engolir o mundo entonteço a Ilha, grávida das minhas bebedeiras na noite esquecida.

 

Luís Carlos Patraquim nasceu em Lourenço Marques (atual Maputo), em 1953. Refugiou-se na Suécia, em 1973, por motivos políticos. Regressou ao país em 1975, ingressando no jornal A Tribuna. Membro do núcleo fundador da AIM (Agência de Informação de Moçambique) e do Instituto Nacional de Cinema (INC), atuou, de 1977 a 1986, como roteirista / argumentista e redator do jornal cinematográfico Kuxa Kanema. Foi o criador e coordenador da Gazeta de Artes e Letras (1984/86) da revista Tempo. Desde 1986 reside em Portugal. Publicou, entre outros títulos, Monção (1980), A Inadiável Viagem (1985), Vinte e tal novas formulações e uma elegia carnívora (1992),  Lidemburgo Blues (1997) e O Osso Côncavo (2005). Recebeu o Prêmio Nacional de Poesia de Moçambique, em 1995.



Escrito por Alapalá às 21h13
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Caros, esta é uma página dedicada ao diálogo com as poéticas da África. Desde os cantos da tradição oral até a produção literária contemporânea da África de língua portuguesa (Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe) e ainda das outras Áfricas, em sua infinita variedade de idiomas, dialetos e manifestações culturais.



Escrito por Alapalá às 00h24
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TRÊS POEMAS DE JOÃO MAIMONA

 

SEGUNDA PROVA: A ANAMNESE

 

e se o rosto do espelho formulasse

a indicação do caminho?

o silêncio cantava entre

iluminações substanciais.

 

 

ESPELHO DA CICATRIZ

 

secular diálogo com uma cicatriz.

trama de lágrimas na ausência

de canções e letras constantes.

contínuas: de dia, numa singela

pilhagem de rumores, cintilam à volta

da cicatriz. a miserável acalmia

constante. de noite, doces cacimbos

enxugam o espelho da cicatriz. submissa

desfilava a trama de lágrimas.

 

(continua abaixo)



Escrito por Alapalá às 16h26
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TRANSPARÊNCIA DA EXPRESSÃO

 

as estrelas do meu destino não anunciam

o alfabeto que não escondo tornar anônimo.

os utensílios e a linguagem das janelas;

as noites agrícolas personificam

arquipélagos espessos . e concebem

a morna origem de utensílios.

ofereço as memórias mais efêmeras

ao declínio silencioso das noites agrícolas.

a palavra pestilencial: a irresistível

expressão da última transparência

da geografia projectando ruas entre

respirações libertas. apareciam

variadíssimos utensílios como dedicatória

ao habitual vestuário conspurcado.

 

 

(Do livro Lugar e Origem da Beleza, ed. Kilombelombe, Luanda, 2003)

 

 

João Maimona nasceu em 1955, em Quibocolo, município de Maquela do Zombo, na província de Uíge. É um dos principais nomes da poesia angolana contemporânea. Estudou Humanidades Científicas em Kinshasa, no Congo, e em 1975 ingressou na Faculdade de Ciências, regressando a seu país em 1976. Dois anos depois, fixou residência em Huambo, onde licenciou-se em Medicina Veterinária. É  professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, membro da União dos Escritores Angolanos e deputado pelo Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA). Publicou, entre outros títulos, Idade das palavras (1997), No útero da noite (2001), Lugar e origem da beleza (2003) e Festa de monarquia (2001).  



Escrito por Alapalá às 15h32
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