OLOKUM


OBRA CEGA

 

Nada sei

e o que presumo

emudeceu

de perfeição

 

*

 

Obscura pauta

entre as mandíbulas

oro

 

sentindo a estepe

na planta

dos pés

 

(CONTINUA ABAIXO)



Escrito por Alapalá às 16h40
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*

 

Escrito a cal

este reboco

Obra Cega

de merda

seca & sal

 

Boa Noite

Anjo Azul

olhar

com menino

por trás Só

 

a dor imita

o cursivo oculto

da adaga

tinta

de sonhos

 

 

(CONTINUA ABAIXO)



Escrito por Alapalá às 16h40
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*

 

Em diferido

noutra álgebra

uma sombra

alojou o coração

 

 

anfíbia filigrana

d’água rosada

ânfora ausente

luz de jade

 

suspeita se

 

*

 

Esquivas minhas

sandálias pardas

cavo com elas

pegadas de prata

 

 

(Do poeta angolano David Mestre, 1948-1997)



Escrito por Alapalá às 16h40
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UM POEMA DE MAVIS SMALBERG

 

PARA NOSSAS MÃES

 

Velhas senhoras negras têm o sorriso mais bonito

as faces delas ardem

lampejam

como a púrpura profunda

 

Púrpura: majestade, luto.

Velhas senhoras negras comparam

Seus lamentos os amores perdidos

as vidas perdidas

de filhos e filhas mutilados

assassinados

e crianças de três anos

fuziladas

no Point Black Range

 

(CONTINUA EMBAIXO)



Escrito por Alapalá às 15h45
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Todavia raras velhas senhoras ainda sorriem.

Elas sonham com um longo túnel negro

sempre se alargando

envolvendo o branco

esmagando-o

exterminando-o

 

Velhas senhoras negras são mágicas

em túneis negros.

Elas fazem cabeças de porco enrugarem

fazem macacões de sobras cinzas e azuis

os quais ondulam em formas estranhas

de homens ainda mais estranhos

 

(CONTINUA EMBAIXO)



Escrito por Alapalá às 15h44
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rodopiam infinitamente

até suas formas desaparecerem

em uma mancha suculenta e encharcada

Velhas senhoras negras são mágicas

em procurar o branco dentro de túneis negros

Elas descolorem macacões cinzas e azuis

uniformes

torcem-nos

e penduram-nos para secar

 

Majestosamente

envoltas em púrpura

Velhas senhoras negras lamentam.

Mas na próxima vez,

Macacões azuis,

quando avistarem uma velha senhora Negra

parem

e guardem o seu sorriso.

 

 

Tradução: Ana Rüsche



Escrito por Alapalá às 15h44
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FOR OUR MOTHERS

 

Black old ladies have the most beautiful smiles

their face’s glow

gleam

like deep purple

 

Purple: royal, mourning.

Black old ladies compare

They mourn the lost loves

the lost lives

of sons and daughters maimed

killed

and three-year-old grandchildren

shot

at point black range



Escrito por Alapalá às 15h44
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Yet lack old ladies still smile.

They dream of a long black tunnel

ever widening

enveloping the white

squeezing it

obliterating it

 

Black old ladies make magic

in black tunnels.

They make pig faces shrivel

make odd-shaped grey and blue overalls

which billow out into the strange shape

of even stranger men

spin endlessly

till their shapes disappear

into a pulpy soggy blur

 

(CONTINUA EMBAIXO)



Escrito por Alapalá às 15h43
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Black old ladies are magic

in white-seeking black tunnels.

They discolour grey and blue overalls

uniforms

twist them

and hang them out of dry

 

Royal

purple-clad

Black old ladies mourn.

But next time

blue Overalls

you see a Black old lady

stop

and watch her smile

 

 

 

EM TEMPO: Mavis Samlberg é um poeta sul-africano. Aliás, a revista Et Cetera n. 8, editada em Curitiba pela Travessa dos Editores, publicou um caderno com quatro poetas da África do Sul, traduzidos pela incansável Ana Rüsche.  



Escrito por Alapalá às 15h42
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Escrito por Alapalá às 21h10
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O CAMINHO DAS ESTRELAS

 

Seguindo

           o  caminho das estrelas

pela curva ágil do pescoço da gazela

sobre a onda sobre a nuvem

com as asas primaveris da amizade

 

Simples nota musical

Indispensável átomo da harmonia

partícula

germe

cor

na combinação múltipla do humano

 

Preciso e inevitável

como o inevitável passado escrevo

através das consciências

como o presente

 

Não abstracto

incolor

    entre ideias sem cor

sem ritmo

    entre as arritmias do irreal

inodoro

     entre as selvas desaromatizadas

     de troncos sem raiz

 

 

(CONTINUA EMBAIXO)



Escrito por Alapalá às 21h07
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Mas concreto

vestido do verde

do cheiro novo das florestas depois da chuva

 

da seiva do raio do trovão

as mãos amparando a germinação do riso

sobre os campos da esperança

 

A liberdade nos olhos

o som nos ouvidos,

     das mãos ávidas sobre a pele do tambor

num acelerado e claro ritmo

de Zaires Calaáris montanhas luz

vermelha de fogueiras infinitas nos capinzais

      violentados

harmonia espiritual de vozes tam-tam

num ritmo claro de África

 

Assim

       o caminho das estrelas

pela curva ágil do pescoço da gazela

para a harmonia do mundo.

 

 

(Poema de Agostinho Neto, enviado a mim por Abreu Paxe.)



Escrito por Alapalá às 21h06
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Peixeiras, Kiki Lima

 

Nha coraçôm ê dum rapaz de vint'óne:

êl tâ rí, êl tâ chorá, consoante êl crê.

Se dá'l pa cantá, êl ê italióne,

pa quêl sangue quêl herdá quand' m'nascê:

 

Se dá'l pâ chorá, êl ê caboverdeóne

 

Meu coração é dum rapaz de vinte anos:

ri, chora, consoante ele quer.

Se lhe dá para cantar, é italiano,

por aquele sangue que herdou quando nasci

 

Se lhe dá para chorar, é caboverdeano

 

***

 

E j'a m' bá e já m' bem;

já m' torná bá e torná bem;

e alí'm lí, de pê na tchôm,

 

sem um vintem, sem um tstôm,

tâ crê torná bá...

ma pa torná bem...

 

Já fui e já regressei;

já tornei a ir e tornei a regressar;

aqui estou, de pés no chão,

 

sem um vintém, sem um tostão,

a querer ir...

e tornar a regressar...

 

Sérgio Frusoni

Tradução: Simone Caputo Gomes

Poeta cabo-verdiano, filho de pais italianos, Sérgio Frusoni nasceu na cidade do Mindelo, em São Vicente em 1901. Escrevia poemas e contos em crioulo de São Vicente (Criol d' Soncente), foi radialista e pintor.



Escrito por Virna Teixeira às 08h26
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"Quem dança,

Não é quem levanta poeira.

Quem dança

é quem reinventa o chão"

Ditado moçambicano contado por Mia Couto em palestra no SESC Vila Mariana ontem.



Escrito por ana rüsche às 19h35
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UM POEMA DE LUANDINO VIEIRA

 

SONS

 

A guitarra

é som antepassado

 

Partiram-se as cordas

esticadas pela vida.

 

Chorei fado.

 

Que importa hoje

se o recuso:

 

o ngoma é o som adivinhado

 

 

(Extraído de No reino de Caliban II -  antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa)

 

 

José Vieira Mateus da Graça, mais conhecido como Luandino Vieira, nasceu em Vila Nova de Ourém, Portugal, em 1935. Chegou em Angola com seus pais,  colonos portugueses, quando tinha três anos de idade. Foi preso em 1959. Voltou a ser preso em 1961 e condenado a 14 anos de reclusão. Solto em 1972, fixou residência em Lisboa, onde trabalhou numa editora. Regressou a Luanda em 1975. Ocupou cargos diretivos no Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA) e foi presidente da Radiotelevisão Popular. Sua obra de ficção é premiada. As poesias estão dispersas por publicações periódicas e representadas em várias antologias, das quais uma - No Reino de Caliban - reúne toda a sua obra poética.



Escrito por Alapalá às 16h22
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